O Banquete de Clio

Clio, a proclamadora, desafia Calíope para um grande diálogo que deverá acontecer no Museion. Ela propõe um banquete para celebrar o encontro junto com suas irmãs. É chegado o dia e todas as musas do Olimpo estão dispostas no Museion. Mnemosine fica ao centro observando para julgar quem de fato é a mais sábia.

— Calíope, pergunta Clio, tu andas por aí afirmando que és a mais sábia entre as musas, contudo esquecestes que tuas lendas, fantasias e imaginações são frutos de tuas mentiras inventadas;

— Tu, diz Clio, imaginas o inexistente, quanto a mim penso no concreto. Eu tenho a verdade como premissa e como compromisso. A verdade é o caminho da justiça, da retidão e do conhecimento, coisas que tu não tens.

— Andas por aí divagando tuas apostasias, no entanto eu tenho o compromisso com a verdade e com a realidade, afirma Clio.

— Eu tenho algo semelhante com nossa mãe, Mnemosine, que é a memória do passado. Por mim o homem conhece as histórias dos deuses, eu investigo e proclamo a verdade dos fatos para que se projete o futuro, diz Clio.

Calíope em silêncio, diante de suas irmãs e de sua mãe, escuta atentamente o discurso de Clio.

Ao chegar o seu momento de falar, responde então Calíope:

— Dissestes bem quando falastes da verdade. A verdade é a tua essência, porém tu te esquecestes que o meu compromisso não é com a verdade e sim com a imaginação! Tu és limitada em tuas ações. Quanto a mim sou ilimitada e o universo está ao meu alcance.

— Tuas verdades, disse Calíope, não alcançam até aonde meus designíos podem atingir! vos lembrastes de dizer que sou a bela voz e tenho a eloquência como minha essência.

— Chego onde tu jamais poderia alcançar. Transformo a água em vinho através da minha imaginação, coisa que tu como senhora da verdade não poderás fazer. Converto os céus em estrelas, algo incomensurável para que tu possas perceber. Do Hades ao Olimpo posso contemplar num instante coisas que talvez tu levarias séculos para contar, diz Calíope

— Eu não preciso de tuas verdades para existir. O que tenho contra ti é que vos esquecestes de dizer que sou como asas da imaginação.

— Te darei uma ilustração do que digo e afirmo que sou a mais sábia entre nós, diz Calíope.

— Suponhamos que sou um faisão e tu és um leopardo dos mais velozes entre os animais. Imaginemos que a nossa frente há um lindo campo esverdeado, porém no final desse campo há um precipício e no fundo dele estão rochas pontiagudas, continua ilustrando Calíope

— Imaginemos que iremos disputar uma corrida até ao final para ver quem chega primeiro ao outro lado do campo. É iniciada a corrida e tu disparas na frente por ser o animal mais veloz, mas tens que reduzir drasticamente a velocidade para não cair no precipício. Após algum tempo chego eu voando por cima de tuas costas, atravesso o precipício e chego ao outro vencendo a corrida, diz Calíope.

— Isso não é justo, afirma Clio, tu tens asas para ultrapassar este precipício, eu tenho a velocidade, mas não tenho asas para chegar ao outro lado, diz Clio.

— Falaste bem, diz Calíope, essa ilustração é para que tu possas compreender que tens limitações. Tu podes ir até um determinado limite com a tua verdade. Eu não preciso dela para imaginar o além, o infinito e o universo. Tua verdade é limitada a algo concreto. Posso chegar a onde tua limitação não pode. A inexistência também é minha essência, assim como tu não conseguiste ultrapassar este precipício na pele deste leopardo, digo-te que também tua verdade é limitada a tua existência. Eu possuo a imaginação transcendental porque não tenho a verdade como premissa. És como este leopardo, fustigado pela tua exígua condição humana. Quanto a mim, sou como este faisão, pois viajo nas asas da imaginação!

As deusas irmãs confabulavam entre si sem chegar a nenhuma solução para o impasse. Foi quando Mnemosine não suportando tanta dialética e retórica de Clio e Calíope chamou atenção das filhas, as musas do Olimpio.

— Queridas, dizia Mnemosine, vejo que não chegastes a lugar nenhum e nem deram solução para este desafio. Como detentora da memória, posso garantir a vocês duas, Clio e Calíope, que vós sois as precursoras do conhecimento e do saber, uma não existe sem a outra. Clio que é a história, utiliza das mnemônica de sua irmã para investigar o passado, pois nem sempre as verdades estão escritas nos pergaminhos e será necessário interpretá-las dos textos épicos de Calíope. Tu minha filha Calíope, que és a bela voz, dona da eloquência, minha primogênita, que é detentora da poesia épica e da ciência, tens em tuas narrativas as verdades de tua irmã, pois todas as tuas personificações são frutos de tua imaginação, porém estás impingidas das verdades de tua irmã. Tu não construíste narrativas que não usasse boa dose da essência de Clio, a história. Digo a vós que ambas têm sua importância e suas sabedorias e os seus conhecimentos estão coadunados para o bem comum, que é o saber, conclui Mnomosine.

Dessa forma, Clio e Calíope compreenderam que ambas se completavam e que suas produções dependiam uma da outra. A história, Clio, é a ciência da investigação do passado que se utiliza de Calíope para compreender suas narrativas. Calíope, a Literatura, usa em suas epopeias o  contexto de Clio, a história para dar existência às suas narrativas. Assim as duas musas do Olimpo viveram para sempre em harmonia. (Artigo Publicado na REVISTA O BRIGADIANO, 2019,  Ano I, n° 1)

Sobre o Autor AUTOR

 Ebnilson Carvalho. Sargento da Policial Militar do Maranhão é graduado em História (Universidade Estadual do Maranhão), Direito (Faculdade Estácio de São Luís), Especialista em Educação, Desenvolvimento e Políticas Educativas (Faculdade Adelmar Rosado) e Bacharelando em Teologia Protestante (UNINTER). Membro da Academia Maranhense de Letras, Ciências e Artes Militares-AMCLAM.

 

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